
Aqueles meninos
Via, há pouco, comovente filme sobre os primeiros casos de AIDS. De início atribuída apenas aos gays, a síndrome se tornou um veículo (mais um!) para o preconceito. Susan Sonntag escreveu belo livro sobre isso, A doença como metáfora, servindo para condenar o doente, não a doença. Depois se viu que havia outras formas de contaminação: pelas seringas, pelo sangue doado, pelo soro, pelo plasma que deveria salvar hemofílicos (e assim morreram Betinho e seus irmãos...) E pelo próprio ato sexual, mesmo que hetero.
Me trouxe à lembrança conversas recentes: o amigo gay que viu toda uma geração de amigos definhar sob ela; a amiga que encontrou rapaz que conhecera na infância, em adiantado estágio. E aos dois contei dos três casos que testemunhei, e que me doem até hoje.
Foram três ex-alunos, todos jovens, todos pedindo pra me ver. Os dois primeiros de fato eram gays, e fui vê-los ali no Nereu Ramos, na ala de isolamento. Foi experiência terrível - não só a ala em si, com seus doentes terminais e os dois PMs na porta, para evitar a entrada de drogas, mas também ver aqueles meninos nas condições em que estavam.
O terceiro - que não era gay - aconteceu muitos anos depois. Por questões muito suas, recusou tratamento. Deixou-se morrer. Quando pediu que fosse vê-lo, faltaram-me forças, não pude, não fui. Mandei abraço, mandei milhões de desculpas, mas pedi que lhe dissessem que não podia, que não iria suportar. Chorei, sei que ele também chorou, mas me dói até hoje - não por culpa, mas pelo sofrimento todo, de nós todos.
A vida não é justa, mas nada tão injusto quanto isso, ver jovens morrendo assim, ainda mais agora, que o tratamento está muito mais adequado, e se consegue sobrevida bem mais longa. A cada exame de rotina, meu ginecologista alerta: há, atualmente, uma incidência muito grande de contágio sobre sua faixa etária. Quer dizer: agora se fala pouco da síndrome, mas ela continua aí, e atacando em todas as idades.
Fiquei triste, fico triste cada vez que me lembro, estou triste, mas a tristeza faz parte... Como acabo de ler em Mia Couto: " Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes. A vida, caro senhor, a vida é um beijo doce em boca amarga."









