domingo, 29 de novembro de 2009

Aqueles meninos




Aqueles meninos

Via, há pouco, comovente filme sobre os primeiros casos de AIDS. De início atribuída apenas aos gays, a síndrome se tornou um veículo (mais um!) para o preconceito. Susan Sonntag escreveu belo livro sobre isso, A doença como metáfora, servindo para condenar o doente, não a doença. Depois se viu que havia outras formas de contaminação: pelas seringas, pelo sangue doado, pelo soro, pelo plasma que deveria salvar hemofílicos (e assim morreram Betinho e seus irmãos...) E pelo próprio ato sexual, mesmo que hetero.

Me trouxe à lembrança conversas recentes: o amigo gay que viu toda uma geração de amigos definhar sob ela; a amiga que encontrou rapaz que conhecera na infância, em adiantado estágio. E aos dois contei dos três casos que testemunhei, e que me doem até hoje.

Foram três ex-alunos, todos jovens, todos pedindo pra me ver. Os dois primeiros de fato eram gays, e fui vê-los ali no Nereu Ramos, na ala de isolamento. Foi experiência terrível - não só a ala em si, com seus doentes terminais e os dois PMs na porta, para evitar a entrada de drogas, mas também ver aqueles meninos nas condições em que estavam.

O terceiro - que não era gay - aconteceu muitos anos depois. Por questões muito suas, recusou tratamento. Deixou-se morrer. Quando pediu que fosse vê-lo, faltaram-me forças, não pude, não fui. Mandei abraço, mandei milhões de desculpas, mas pedi que lhe dissessem que não podia, que não iria suportar. Chorei, sei que ele também chorou, mas me dói até hoje - não por culpa, mas pelo sofrimento todo, de nós todos.

A vida não é justa, mas nada tão injusto quanto isso, ver jovens morrendo assim, ainda mais agora, que o tratamento está muito mais adequado, e se consegue sobrevida bem mais longa. A cada exame de rotina, meu ginecologista alerta: há, atualmente, uma incidência muito grande de contágio sobre sua faixa etária. Quer dizer: agora se fala pouco da síndrome, mas ela continua aí, e atacando em todas as idades.

Fiquei triste, fico triste cada vez que me lembro, estou triste, mas a tristeza faz parte... Como acabo de ler em Mia Couto: " Mas a vida é um peso que precisa ser carregado por todos os viventes. A vida, caro senhor, a vida é um beijo doce em boca amarga."

Agora não,outra hora!





Agora não, outra hora

Para Cristine

Quando meus filhos eram crianças, morávamos numa casa e tínhamos cachorro. Criança, pra convencer os pais, jura cuidar direitinho do animal. Não dura nem 15 dias… Nunca me custou alimentar os cachorros, mas detestava dar banho, por não suportar o cheiro. E ter que fazê-lo me deixava zangada. De modo que minhas listas familiares de tarefas terminavam sempre com: dar banho no cachorro. Não adiantava de nada, mas, pelo menos, tinha tentado. (E, até hoje, quando peço algo pros filhos, termino dizendo: não te esquece de dar banho no cachorro…)

Na adolescência, a preguicite aguda parece piorar. É endêmica. Sou preguiçosa, reconheço, especialmente pra tudo que exija esforço físico. Mas tenho de caminhar diariamente, e houve dias em que, por causa do calor, me levantava às 5 horas, e 5h15 da madrugada, sol ainda por nascer, estava saindo de casa, pra cumprir essa tarefa. Chata, mas necessária. Assim, quando a Cris se queixou de sua preguiça, dizendo que pra tudo ela diz “agora não, outra hora”, ri uma porção. E comecei a escrever esta crônica.

Porque a gente aprende a driblar a preguiça, a ter, como Quintana, a preguiça como método de trabalho. Eu digo: agora não, outra hora, e assim mesmo me levanto e vou passar roupa. Cantando: lavar roupa todo dia/que agonia… (o que no es lo mismo, pero es igual…) Eu digo: agora não, outra hora, ponho um CD do Zé Kéti e venho revisar texto, cantando junto: acender as velas/já é profissão/quando não tem samba/tem desilusão… Eu digo: agora não, outra hora e vou limpar banheiro… E enquanto faço tais coisas, aproveito pra ir pensando… Não deixo a preguiça mandar em mim, não. Minha preguiça é meu método de trabalho!

Minha filha, que também é Cris, vive perguntando: “Mãe, dizes que tens preguiça de fazer trabalho doméstico, mas tua casa tá sempre arrumadinha. Como consegues? “Respondo: é simples, ela não vai se arrumar sozinha, e gosto dela arrumada. Com os textos, é a mesma coisa: eles não se escrevem sozinhos… Tem de pensar, e se pôr a escrever: achar um título, desenvolver, dar formato pra ele, revisar, concluir.

A rotina doméstica é repetitiva, é chata, todo dia tudo sempre igual. Escrever, não: fica cada dia mais fácil, mais gostoso; mais azeitados, os textos vão se formulando sozinhos, se achando, na polifonia dos textos lidos, das conversas trocadas, do visto, do vivido. Entendo agora por que os livros do Lobo Antunes vão ficando cada vez maiores: a cada um ele aprende mais, tem mais coisas pra dizer.

Agora não, outra hora? Nada disso! Como Macunaíma, bocejo e digo: ai, que preguiça! Mas é agora sim: agora eu limpo, passo, penso, escrevo. Agora eu amo, aprendo prato novo, leio poeta argentino, assessoro poeta amiga, leio entrevista de João Bosco, traduzo duas páginas do Byrnes, dois parágrafos de um artigo do Cain, ficho livro do Bataille.

Na caminhada, o cérebro se anima, as sinapses ficam como devem, penso melhor. Quando não estou a fim disso, levo o MP3 e ouço música. Driblo a preguiça… Só não me peçam pra dar banho em cachorro!

E aproveito o som presente pra citar Zé Kéti: podem me prender/podem me bater/podem até deixar-me sem comer/que eu não mudo de opinião E tem mais: hoje, a caminhada vai ser às 8 horas, e até o extremo (quase) do Santa Mônica. Tenho de ir até lá, pagar a dentista. Usando aquela discreta camiseta rosa-choque que diz: I’m not made in China!

(publicada no Anexo do AN, 27/3/08. p. 3)

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Um nome de família


(Liège: jardins da Praça da Catedral)

Sou neta do jornalista e escritor Tito Carvalho: isso todo mundo sabe. E é fácil de lembrar, já que ele era meu avô paterno, e carrego seu sobrenome. O que poucos sabem é que meu avô materno também se chamava Tito. E este é nome que se repete na família, dos dois lados: um primo se chama Luís Tito, um cunhado tem o apelido de Tito. (Do lado paterno, o nome não deu sorte: o tio e o primo não passaram da primeira infância).

Meu avô materno se chamava, pois, Tito: Tito Gevaerd. Os Gevaerd, quando emigraram da Bélgica, vieram em vários primos, e se fixaram aqui e no sul do estado. Agora estão espalhados por vários locais, em Santa Catarina e em outros estados, mas somos todos parentes. Há grande concentração deles em Brusque, por exemplo. Meu bisavô, que tinha um sítio no Itacorubi, se chamava Leandre, e era de Liège. Os Gevaerd são flamengos de origem, o que significa que são belgas de ascendência holandesa, e a pronúncia correta seria Guevárt.

Viúvo, o velho Leandro se casou com uma Vieira, a mãe do meu avô. E o vô gostava de contar histórias de seu pai, de quem não tinha lá muito boas lembranças: era grosseiro e levava a economia a extremos de sovinice. Ouvi muitos causos dele, sempre negativos, mas quando viu minha filha pela primeira vez, assim branquinha, na infância muito galega, os olhos claros, os olhos do vô marejaram: são os olhos do meu pai! É, a genética tem dessas coisas, mas tem que ver que há italianos pela família do pai dela... Não queria, no entanto, desapontá-lo e não comentei nada...

Pois seu Tito Gevaerd era marítimo e trabalhava na Companhia Hoepeck de Navegação. Andou embarcado em todos os seus navios, o Hannah, o Max, o Karl Hoepeck. Me lembro dele voltando de viagem, cerca de 40 dias fora – iam até Cabedelo, na Paraíba, e voltavam – e das encomendas que trazia: batidas do nordeste, açúcar refinado do Rio, maravilhosas latas de bolacha cream cracker, enormes latas que esvaziávamos em poucos dias, as bolachas deliciosas, crocantes.

O vô chegava, tomava banho,vestia seu melhor terno, me fazia engraxar seus sapatos até poder se enxergar neles, e saía : vou cumprimentar o Dr. Deba! O Aderbal Ramos da Silva era o benfeitor que tinha lhe arrumado o emprego, depois de anos no embrutecimento da estiva, e o velho jamais se esqueceu disso. Foi ali que se aposentou, pelo antigo IAPM, Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos, antes da unificação daninha.

Estava eu ali na cozinha, fritando umas almôndegas muito cheirosas, quando me lembrei que ele as chamava de “bolinhas de porão”, o nome de bordo para um prato que não consideravam digno nem da segunda classe. Veio sua lembrança inteira, essas coisas da memória caprichosa: suas histórias de “lambisômi”, seu rotacismo (trocava o “l” pelo “r” e fazia piadas sobre isso), ele me chamando sempre de “Gininha”... Tinha uns rompantes inesperados, e gostava de bicar a “água que matou o guarda”. Morreu com 87 anos, os cabelos só ficando brancos depois dos 70, e assim lisos e escorridos como os meus, o mesmo rodamoinho no topo da cabeça, coisa mais engraçada.

Tudo isso porque hoje me deu vontade de fazer umas almôndegas para o almoço!

Sardá tem razão!

Floripa precisa reagir, por Laudelino José Sardá *

A desordem no crescimento urbano é reflexo do descompromisso e da ostentação de uma gestão pública incapaz de enxergar os sinais de decadência de Florianópolis. Bastaria gostar da cidade para o gestor identificar as ameaças de deterioração social e econômica e investir em soluções rápidas. Mas o gestor ignorou o perfil de uma cidade fincada entre montanhas e mar, preferindo obras vistosas, como os viadutos, aliás, aqueles amontoados de concreto. O ano encerra-se com a cidade em estado deplorável. O tenor italiano Andrea Bocelli não cantará mais por R$ 4 milhões. Músicos da Itália terão de vir com ele e, assim, mais R$ 1,4 milhão de despesas. A árvore de Natal não sairá por menos de R$ 3 milhões, enquanto os fogos de artifício vão exigir mais um desembolso de quase R$ 1,5 milhão. Há os gastos de R$ 1,8 milhão com mais um kartódromo, e Schumacher exigiu um cachê de U$ 400 mil para vir dar uma voltinha de kart na pista. Foi para isso que o Sapiens Parque foi projetado?

Neste cenário desolador, a cidade perdeu até o que tinha. Seus teatros vivem fechados, casas históricas em demolição, as raízes artísticas em extinção e nada é construído pensando na história e na vida de Florianópolis. Somos, hoje, uma cidade desconstruída, sem identidade. Todos os seus segmentos, quer culturais ou empresariais, estão adormecidos, quem sabe com medo de o governante prenunciar o mal, a exemplo de Floriano Peixoto, que matou dezenas de ilhéus em nome de uma falsa república. É preciso reagir. E, independente de ideologias e de partidos sem ideologias, Florianópolis necessita recuperar a sua dignidade para afastar o risco de o prefeito alienígena e irresponsável destruir completamente este manto natural que ainda espelha uma referência mundial em qualidade de vida.

O silêncio da cidade é o verme que a consome.

* Jornalista e professor

Viver é lutar


(Guerreira masai, por Nicola Rabbet)

Viver é lutar

(pro Silva)

Não está morto quem peleia, dizem os gaúchos. Meu pai declamava Gonçalves Dias:Não chores, meu filho / Não chores, que a vida / É luta renhida:/ Viver é lutar./ Se a vida é combate/ Que aos fracos abate/ Aos bravos, aos fortes/Só pode exaltar!
Por que estou falando isso, hoje? Simples: fui militante petista durante muitos anos, e brinco sobre isso dizendo que meu passado me condena…

Embora não tenha participado da fundação do partido em Floripa, sou considerada petista histórica. Sou, ideologicamente, anarco-sindicalista, e contrariei nossos princípios básicos me filiando a partido político. Naquele momento isso parecia – a mim e a alguns outros semelhantes – algo que precisava ser feito, algo essencial.
Quando Lula se elegeu presidente a primeira vez, considerei a missão cumprida, e pedi desfiliação.

Velho companheiro das velhas lutas dos primeiros tempos me cobra falar disso. Demorei um pouco, pois não achava o viés adequado. Encontrei ontem, pela somatória de papos e emails de outras pessoas. Aí vai.

Antes eu era muita emoção e pouca razão, em questões que envolvessem posições políticas. Além disso, tinha que estudar um bocado para as minhas aulas e cursos de pós, e não me sobrava tempo nem pique para estudar política. Havia, porém, companheiros que o faziam, e me ensinaram muita coisa. Estávamos no calçadão, sol a pino, distribuindo panfletos, tentando conversar com as pessoas (muitas vezes ouvindo desaforos), sacrificando lazer, família, repouso, pra trabalhar pela construção da utopia em que acreditávamos. Conversávamos entre nós, também, partilhando idéias, visões, soluções, encorajamentos.

Éramos pessoas as mais diversas: professores de todos os níveis de ensino, funcionários públicos, bancários, pessoal ligado à Igreja Católica, um ou outro padre, trabalhadores (poucos) do setor privado. Tínhamos os mais diferentes matizes ideológicos: leninistas, trotskistas, maoístas, alguns anarquistas – e mesmo esses, diferentes entre si. Um balaio de gatos, briguentos e incansáveis, mas ao fim e ao cabo cheios de afeto uns pelos outros. Discussões as mais ferrenhas entre tendências me ensinaram muitas coisas, inclusive a discutir, a balancear emoção e razão, a aceitar razões mais adequadas, encaminhamentos melhores para os problemas a enfrentar. No partido, na política… e na vida.

Aprendi a aceitar o diferente não como inimigo, mas como alguém que vê o mundo de outra maneira, e merece respeito. E a ficar triste ao perceber que muitas vezes era um semelhante que não o merecia…

Aprendi a lutar – a defender posição quando a julgasse a mais correta, a discutir sem me enraivecer, a aceitar filosoficamente as derrotas: umas se ganha, outras se perde, fazer o quê!

E assim é também na vida. Muita gente acredita que o ser humano realmente bravo é aquele que nunca esmorece. Ora, este só pode ser é louco de pedra!

O verdadeiro bravo vai dormir derrotado, desanimado, pensando em desistir de tudo, porque a vida apronta cada falseta que ninguém merece… E daí acorda renovado e canta pra si mesmo: afinal de contas, não tem cabimento entregar o jogo no primeiro tempo! Pensa em novas táticas, em novos argumentos, em ações diferentes. E vai à luta.

Existem vitórias que nos prejudicam terrivelmente, existem derrotas que nos ensinam muita coisa. A toda essa aprendizagem sou demais de agradecida, graças a ela me tornei a pessoa que sou hoje. Estou de bem comigo; isso é difícil de alcançar, na vida, mas é muito bom.

(Publicada no Anexo do AN, 3/4/2008.p.3)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Os oráculos não morreram


O oráculo de Delfos, de Michelângelo

Os oráculos não morreram

“Diga ao rei isso: o templo glorioso caiu em ruínas; Apolo já não tem um teto sobre a sua cabeça; as folhas dos lauréis estão silenciosas, as fontes e arroios proféticos estão mortos.” Este foi o recado que os últimos sacerdotes do Templo de Delfos, o mais famoso oráculo de todos os tempos, mandaram ao rei apóstata que queria marcar uma consulta. E o Templo de Delfos durou séculos, com suas profecias ambíguas o bastante para estarem sempre certas…

Mas os sacerdotes erraram esta: os arroios e fontes proféticos nunca morreram, talvez porque os homens andem sempre desesperados atrás da esperança. E existem horóscopos, tarôs, búzios… e as sortes diárias no orkut. Essas são as que mais me divertem.

Vamos analisar algumas (que rodam indiferentemente de página em página):

- Você nunca vacila ao enfrentar os problemas mais difíceis… (Sou de fato pessoa decidida, apenas porque não gosto de ficar chocando problema. Mas que vacilo, vacilo, podem crer!)

- A felicidade está no horizonte da sua vida… (Puxa, preferia que ela estivesse na minha vida. O horizonte é sempre mais além, não se chega nele nunca. Desanimadora profecia!)

- Você vai ganhar roupas novas… (Disse e repito: uso M, e fico bem de amarelo!)

- O nosso primeiro e último amor é… o amor-próprio… (nem sempre, nem sempre… Às vezes precisamos abdicar dele, pra alcançar o horizonte e catar um pouco de felicidade.)

- Você terá uma velhice muito confortável… (Já estou na velhice, confesso que ela de fato está sendo confortável… e alegre. Mas isso não é uma profecia, é uma constatação).

- Há uma carta ou mensagem alegre chegando para você… (ainda não sei o que há de alegre em avisos de vencimento e cobranças, as únicas cartas que recebo… A não ser o fato de que as contas de telefone e luz foram menores que as do mês passado. Isso de fato foi boa notícia! Mas o condomínio aumentou!)

- O coração é mais sábio que a razão… (O meu, não: só faz bobagem!)

- Só prometa o que pode cumprir … (Bota aí bom senso e clichê. Odeio clichês!)

- Seus princípios valem mais para você do que dinheiro ou sucesso…(Isso é característica, não profecia. Seria melhor dizer: pela mania de achar que os princípios valem mais, você viverá entrando pelo cano…)

- Você aproveitará uma oportunidade em breve… ( Essa dói! Como resolver? Jogo na MegaSena? Me atiro nos braços do primeiro coroa que der bola? Procuro um novo emprego, que supra as deficiências da aposentadoria? Ou compro uma bicicleta? )

- Você é o charme e a cordialidade em pessoa… (Dessa eu gostei, pois concordo plenamente, é claro… Mas se for profecia, não vale, pois daí significa que não sou ainda, só que serei…)

- A vontade das pessoas é a melhor das leis… (A dos pedófilos, também? A dos assassinos ou estupradores em série, também? Essa é de assustar!)

- Você passará em uma prova de fogo que o tornará mais feliz… (Faz calor! Fogo, não! Fogo, não! E sou “o”, agora? Cruzes!)

- Você tem um novo negócio importante em fase de desenvolvimento… (Será que isso é bom? Pois deve ser algum negócio que está se desenvolvendo por conta própria, à revelia… Que será? Fiquei preocupada…)

- Você e sua mulher terão uma vida feliz... (Esta foi a que mais me divertiu! Me pôs num dilema terrível! Nunca tinha me passado pela cabeça casar com mulher, mas se for o preço da felicidade...)

Por sorte, pra safar a onça, tem comunidade do próprio orkut gozando disso: Madame Orkut é a pior...

A princesa e o sapo

É o último lançamento da Disney. Tou louca pra ver!




Dá pra resistir a um sapinho charmoso assim?



Ah, até que enfim!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

As crias do seu Airton





Foi na década de setenta, acho. 1970, como se é obrigado a dizer agora, no século XXI… Na rua Conselheiro Mafra, em Floripa, quase na esquina com a 7 de Setembro, havia uma Livraria Catarinense. Foi a primeira, na capital. Funcionava num daqueles casarões antigos, espaçosos, com mezanino e piso de madeira.

No norte do estado ela se chama Livrarias Curitiba, faz parte de uma rede paranaense, assim como a da capital (hoje “as” da capital) . Por razões óbvias, mudou a razão social na Ilha, ou iria entrar por um cano danado – naquela época, de certeza; hoje, talvez não mais.

O gerente era o seu Airton, uma figuraça (e eu amo figuraças, ‘cês sabem!). Curitibano, seu Aírton sabia tudo de livros, editoras, distribuição… Se fosse a respeito de livro, ele sabia. Era um bom leitor… e um bom papo, também.

Uma das lembranças mais divertidas que tenho dele foi quando encomendei o Relatório Hite, sobre sexualidade feminina: “mas como que a senhora, uma mulher séria, uma mãe de família, mulher casada, vai ler uma coisa dessas? “ Não adiantou nada tentar argumentar racionalmente: o livro é uma pesquisa séria; sou mesmo uma mulher casada, justo por isso é interessante que leia; sou também uma professora universitária… Nada: ele se recusava a me vender o livro. E o curto pavio desta mulher curtinha queimou: eu quero ler o raio do livro! Se o senhor não vai me vender, tudo bem! Compro noutro lugar!

Saí com o livro debaixo do braço, é claro, pois se o racional não funciona, o comercial dá jeito. Mas acho que perdi cem pontos na escala dele, de mulher séria, mãe de família, mulher casada…De professora universitária, talvez não, pois não somos mesmo muito bem afamadas…

Mais do que uma figura, porém, seu Airton foi um grande professor. Com ele se formaram vendedores que não eram simples atendentes de livrarias, mas também livreiros… Dali surgiu Daniel, da Livros&Livros; dali surgiram Verônica e Eduardo, que trabalham com Daniel; dali surgiu o Chico, que é bibliotecário da Uniplac, em Lages – e fez o curso trabalhando na livraria. Livreiros, sim… e grandes amigos, também.

Na festa de inauguração da Megastore da Livros&Livros , de repente Daniel me aparece com um velho senhor: lembras dele? Fiquei meio em dúvida, e o senhor, desapontado: ela também não se lembra de mim!

Foi ouvir a voz, o sotaque, e a memória fez a sinapse, rapidinho: seu Airton!, e já fui receptiva, dando-lhe um grande abraço. E como ele ficou feliz!

Semana passada, entrei numa das novas livrarias da capital, e veio uma mocinha bonita e simpática me atender, cheia de boa vontade: em que posso ajudá-la, senhora? E são livrarias de design moderno, agradáveis de se olhar, mas, sei lá porquê, não têm CLIMA de livraria… Parecem mais supermercados de livros, com gôndolas de últimos lançamentos, mais vendidos, auto-ajuda… As grandes editoras pagam boa comissão por essa exposição diferenciada, que expõe mais o livro aos olhos do cliente, e as livrarias abusam do recurso.

Pois a atendente simpática veio, e eu, freqüentadora habitual de livrarias, onde me sinto mais em casa do que na minha própria casa:

- Onde vocês põem os livros da Ática?
E ela:
- Ática é nome ou sobrenome do autor?

Ninguém merece! Pela gentileza dela, consegui ser gentil também, explicar que era uma editora. Mas a vontade era fazer meia volta e bater em retirada…

Não tem coisa melhor do que poder entrar na livraria, perguntar:
- Já chegou o último Block?
E o vendedor saber…

(Publicada no Anexo do AN, no dia 3/1/2008. p.3)

Uma lembrança especial





Havia uma ou duas mulheres - às vezes nenhuma. As turmas eram masculinas e enormes: quarenta ou trinta e nove marmanjos, no fim da adolescência, cabeças raspadas, a maioria com 1,80 ou mais. Assim eram minhas turmas nas engenharias, quando comecei a lecionar na UFSC.

Eu lecionava português, um pouco de gramática, muito de textos. Textos que servissem de introdução e de refrigério para as chatices gramaticais, que eles estavam cansados de ver. Crônicas, poemas, letras de música, às vezes até trechos de uma peça de teatro. Eles gostavam tanto, que apelidavam minhas aulas de "a hora do recreio"... Compreensível: no meio das físicas e dos cálculos, com este meu habitual bom humor, deveria ser mesmo o momento da leveza.

Em uma das turmas (acho que em 1980/1) dois amigos que ficaram na lembrança: Ênio Padilha Filho e Mauro Faccioni. Gostavam de literatura e de escrever. Mauro já poetava, Ênio gostava de fazer crônicas. E já mostravam as qualidades do que seriam mais tarde, pois foram premiados em concurso de textos para a Revista Discente, bela criação do Mestre Lauro Junkes.

Muito alto e magro, adepto de corridas, Ênio lembrava aqueles maratonistas africanos, embora muito mais claro que eles. Animados, alegres, organizados como só os meninos da Engenharia Elétrica conseguiam ser - devem ainda ser desse jeito, característica essencial.

Acabamos nos perdendo de vista, coisas da vida. Mas dias desses, em visita ao blog da Lígia Fascioni, encontro post citando o Ênio e seu site. ADOREI! Fui lá conferir, é um site técnico, da área de marketing, na qual tem investido e sobre a qual tem publicado. Deixei comentário com adendo: eu era Pacheco, lembras de mim?

Horas depois, recebo uma resposta: "E eu poderia ter me esquecido de ti, meu amor?" Nem imaginam o bem que a resposta me fez, o cuidado, o carinho percebido! Ele estava na Amazônia, a trabalho, mas mora em Balneário Camboriú, já tem filha fazendo universidade aqui - o tempo voa...

Sempre foram os alunos que fizeram o trabalho na universidade valer a pena, os depositários de toda pesquisa, de toda invenção e de cada texto selecionado entre muitos. E vê-los fazendo seu caminho na vida,mas ainda se lembrando da gente, e perceber que é lembrança agradável, plena de afeto, me deixa bem satisfeita. Pode haver sentimento melhor?

(desta madrugada!)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Mudaria o Natal...





… ou mudei eu? “, perguntam os versos de Machado de Assis. Pois posso responder que não sei do Natal, mas eu mesma estou em franco processo de mudança. E acho interessante como isso vem se gestando, devagarinho, um germe de mudança que vai se formando e crescendo lá dentro, até se manifestar plenamente, não sei ainda se borboleta… ou se lagarta. Só posso adiantar que não estou fumando, não estou bebendo, não estou namorando… Só falta me converter a alguma seita esdrúxula, hehehe. Mas ainda é cedo pra falar disso, porque ainda não sei o que vou aprontar pra mim mesma. Falarei quando souber 'dereitinho' como é, o que é, como foi…

Hoje saí pra caminhar um pouco antes das seis e meia. Lua cheia ainda no céu, a lembrar aquele famoso jantar na Lagoa com João Bosco e Nico Assumção, vocês se lembram, Samuca, Cláudia, Celson?

Pela Lauro Linhares, em direção à Penitenciária, na rua apenas eu e os vigilantes da Back, uniformizados, em direção à sede da empresa, que fica na Trajano Margarida. O ar está fresco ainda, neste veranico de maio, e o passo vai se acelerando sozinho, prazeroso. A lua me vigia, maldosa, e eu nem aí…

Pego a passarela do CIC pelo lado do trevo, e subo e desço sem mudar o passo, como o Daniel ensinou, todas as quatro rampas, descendo em definitivo pela de lá. O sol, que ameaçava em vermelho, já se acalmou, e corro um belo pedaço, também como Daniel ensinou. Há outras pessoas, poucas, caminhando, a maioria afável, dando bom dia ao cruzar com alguém. Nenhum ciclista, nem mesmo os taradinhos que vão participar do Ironman, este domingo.

Saí sem MP3, pra poder pensar - ouvir música me desativa a mente, canto junto, sigo o ritmo da melodia, não consigo juntar duas idéias… Os funcionários da prefeitura já estão trabalhando na reforma da Rua Presidente Gama Rosa, reforma que anda enlouquecendo o pessoal que tem comércio ali. Um deles me disse que ligou, desesperado, pra Secretaria de Obras, e de lá garantiram que entregam a obra prontinha até o final da semana. Pelo estado da obra, ele duvida - e eu, também…

As padarias já estão abertas, os mercadinhos vão abrindo, e o feriadão deixa a Trindade tranqüila, sem os estudantes a caminho da escola, sem os universitários a caminho da UFSC, só os trabalhadores de sempre, a caminho do paraíso… O porteiro do dia é o Alemão, com suas eternas piadas sobre o Lula. Pego minhas chaves com ele, pego o jornal, e a lua continua me vigiando, maldosa, como se me dissesse: Dona Regina, veja lá o que a senhora vai fazer… E eu respondo, sorrindo: nada, madrinha, nada! Ando que é uma santinha…

(postada no blog Coisas de Regininha,em 2008)